terça-feira, 16 de janeiro de 2007

CONTINUAÇÃO

-Bom, achei a senhora interessante. O que se diz dela, isso tu sabes- tanto quanto pude observar de longe, ela devia ter tido um grande passado. Pareceu-me que ela tinha amado todo o tipo de homens e que os tinha conhecido a todos, mas que não tinha suportado nenhum por muito tempo. E é bonita.
- A que chamas bonita?
- Muito simples, não tem nada de supérfluo, nada em demasia. O corpo é bem feito, ela domina-o, atende à sua vontade. Nada nela é indisciplinado, nada falha, nada é indolente. Não sou capaz de me lembrar de nenhuma situação a que ela não tenha contraposto o máximo de beleza. Foi precisamente isso que me atraiu, porque o naif, para mim, é maçador. Procuro uma beleza consciente, formas educadas, cultura. Não, nada de teorias!
- De preferência não.
- Deixei-me portanto envolver e fui lá algumas vezes. Não tinha na altura ninguém, isso via-se facilmente. O marido é uma figura de porcelana. Comecei a aproximar-me. Uns quantos olhares por cima da mesa, uma palavra baixinho quando se brindava, um beijo na face demasiado longo. Ela aceitou, à espera do que viria a seguir. Aceitou encontrar-se.
- Quando estava sentado à frente dela, percebi logo que não havia lugar para métodos. Por isso disse-lhe simplesmente que estava apaixonado e que me punha À sua disposição. Seguiu–se então mais ou menos o seguinte diálogo:
“ Falemos de coisas mais interessantes”
“ Não há nada de mais interessar a não ser a Senhora. Vim para dizer isso. Se a aborrecer, vou me embora”
“ Mas então o que quer de mim?”
“ Minha querida senhora!”
“ Querida! Não o conheço e não o amo!”
“ Vai ver que não estou a brincar. Ofereço-lhe tudo o que sou e o que posso fazer, e poderei fazer muita coisa, se for por si “
“ Sim, é o que todos dizem. Nunca há nada de novo nas vossas declarações de amor. O que é que quer então fazer para me arrebatar? Se realmente me amasse, há muito que já teria feito alguma coisa.”
“ O quê, por exemplo?”
“ Isso deve o senhor saber. Podia ter jejuado durante oito dias, ou pelo menos ter escrito poemas.”
- “ Não sou poeta”
“ Porque não? Quem assim ama transforma-se em poeta, em herói por um sorriso, por um aceno, por uma palavra daquela que ama. Se os poemas não são bons, são no entanto ardorosos e cheios de amor.”
“ Tem razão, minha senhora. Não sou poeta, não sou herói, e também não me vou matar. Ou, se o fizer, será de mágoa pelo facto de o meu amor não ser tão forte e ardente como a senhora pode exigir. Mas em vez de tudo isso tenho uma vantagem em relação ao amante ideal: compreendo-a.”
“ O que é que compreende?”
“ Que a senhora tem saudades, tal como eu. Não deseja quem a ame, mas gostaria de amar total e disparatadamente. E não é capaz.”
“ Acha?”
“ Acho. Procura o amor tal como eu o procuro. Não é assim?”
“ Talvez”
“ Por isso também não pode precisar de mim e não vou incomodar mais. Mas talvez ainda me possa dizer, antes de me ir embora, se alguma vez, alguma vez mesmo, encontrou o verdadeiro amor”
“ Talvez uma vez. Já percorremos todo este caminho, pode ficar a saber. Foi há três anos. Tive a sensação de ser verdadeiramente amada.”
“ Posso fazer-lhe outra pergunta?”
“ Esteja à vontade. Apareceu um homem que me conheceu e me amou. E como eu era casada, não me disse nada. E quando viu que eu não amava o meu marido e tinha um favorito, veio ter comigo e propôs-me que desfizesse o casamento. Não era possível, e a partir de então esse homem preocupou-se comigo, observava-nos, avisou-me e tornou-se no meu maior apoio e amigo. E quando me afastei do favorito, por sua causa, e estava pronto a aceitá-lo, desprezou-me e foi se embora e nunca mais voltou. Ele amou-me, mais nenhum.”
“ Compreendo”
“ Ora então vá se embora, sim? Já talvez tenhamos dito coisas demais um ao outro”
“ Felicidades… melhor, eu não volto.”
O meu amigo calou-se, chamou o criado passado um bocado, pagou e foi- se embora. E desta conversa, entre outras, cheguei à conclusão que lhe faltava a capacidade para amar verdadeiramente. Ele próprio o tinha dito. E temos de acreditar nas pessoas quando falam das suas limitações. Há muita gente que se acha perfeita, apenas porque não tem muitas reivindicações. O meu amigo não faz isso e pode ser que precisamente o ideal que tem de um verdadeiro amor o tenha feito ser como é. Talvez o espertalhão simpatizasse comigo e possivelmente aquela conversa com a senhora Maria fosse uma simples invenção. Porque ele é secretamente um poeta, de tal maneira luta contra isso.
Simples suposições, talvez enganos….

Fim

Gostaram desta escrita ao século passado?
Comentários?
Vão aparecer mais textos sobre o amor, a amizade, os grandes e os pequenos afectos, as mágoas, o sofrimento, a felicidade.
E mais literatura de muita gente. Talvez a seguir venha Shakespeare, muito mais Hesse, o amor à mesa, a ternura com luz e as maluqueiras da cabeça de cada um.

29 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Mesmo no século passado, as mulheres são umas eternas insatisfeitas...

Crystalzinho disse...

Rafeirito, são é umas eternas incompreendidas!!
Beijitos

Fallen Angel disse...

Gostei sim senhora... e lembrou-me Marlowe, não o velho William. ;-)

Beijos.

Moinante disse...

Cheguei , a este tão cativante recanto , através do " Eu estou aki " ( Nyny ) , e adorei o que li , mas adorei mesmo ...
Deixo aqui o convite para visitares o meu " Ferrolho " , se assim o entenderes .
Obrigado .

noivo disse...

Manda vir! Podes mandar vir!

Crystalzinho disse...

Angel, ainda bem que gostaste.
Bjs

Crystalzinho disse...

Moinante, obrigada pelas tuas palavras. Já estou a caminho da tua casinha.
Bjs

Crystalzinho disse...

Noivo, mando vir e tu pagas, está bem assim?
Bjs

LB disse...

"Simples suposições, talvez enganos…."

Crystalzinho disse...

Ib, pois talvez!

AGRIDOCE disse...

Belo conto, bonita forma de o contar.

Antigamente escrevia-se melhor do que agora, acho eu.

Gosto muito, também, de ler textos antigos.

Há mais?

ci disse...

hi hi hi the end...:)

beijinhos da ci

lua de papel disse...

Ai o amor, ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
bjs

Crystalzinho disse...

Agridoce, ainda bem que gostaste.
Continua a visitar-me e logo saberás o que vem a seguir.
Bjs

Crystalzinho disse...

Ci e Lua de Papel
O amor está no começo e fim de tudo... não ha volta a dar!!
Beijos meninas

Diabólica disse...

Gostei imenso.
Ao que parece, mesmo no passado, nós mulheres eramos as mesmas confusas de hoje.

Obrigada pela tua visita à minha "casa" e pela tua opinião.

Volta sempre, que eu irei fazer o mesmo.

Beijinhos.

Crystalzinho disse...

Diabólica, sabes como é!! As mulheres conseguem ser diabólicas!! No fundo são é muito exigentes quanto ao amor.
Claro que te vou visitar na tua casinha, fui lá tão bem recebida.
Faz o mesmo nesta casa que também é tua.
Beijos

marta disse...

Eu acho é que a senhora também não sabe o que é amor.
O que a amava foi-se embora, porquê?
Isso é brincar às picardias.

Conceição Bernardino disse...

A alegria é um dom que se adquire a arte a tristeza que se transpira
em beleza...
Eu volto
Beijinhos
Belo
Conceição Bernardino

Meus blogs http://amanhecer-poesia.blogspot.com

http://sentidos-visuais.blogspot.com

Crystalzinho disse...

Marta, é que o amor é mesmo muito complicado para o entendermos e a cabeça das pessoas ainda mais.
Bjs

Crystalzinho disse...

Conceição, obrigada pela visita e volta sempre.
Bjs

vida de vidro disse...

Jogos e subtilezas de amor que, hoje em dia, já pouco se usam. Talvez por isso não entendamos bem a essência do amor. **

Crystalzinho disse...

Vida, é isso mesmo.
Obrigada pela visita
Bjs

Nanny disse...

Este teu amigo Tomás faz-me tanto lembrar alguém.... tu queres lá ver...

E este diálogo fez-me lembrar "O Fim da Aventura" do Graham Green que reli o Verão passado e me deliciou!

Crystalzinho disse...

Nanny, acho que todas conhecemos alguem assim.
Bjs

António Rosa disse...

Este é um texto igual para vários blogues:


Por ter decidido criar a “Escola de Astrologia Nova-Lis”, mantendo ao mesmo tempo, a minha actividade de editor do “Anjo Dourado” necessito de TEMPO para me dedicar àquilo que mais gosto: os livros e a astrologia.

Por isso, decidi apagar o meu blogue “Postais da Novalis” no próximo dia 5 de Fevereiro. Não o faço mais cedo, porque nesse mesmo dia ainda farei o post colectivo da “Rede de Blogues Espirituais”.

Sou dos que entendem que, quando se desiste de um blogue, se deve apagá-lo completamente, para que não fique por aí a vaguear, criando energias paradas, que se vão transformando em restos energéticos negativos.

Como entendo que uma coisa leva à outra, também venho solicitar o favor de retirar este meu blogue da sua lista de linques, de modo a que o seu sítio fique energeticamente limpo e bem arejado.

Agradecido por este tempo de convívio,

António Rosa

Crystalzinho disse...

António, respeito a sua decisão mas tenho pena que a tenha tomado.
Felicidades para o novo começo
beijos

noivo disse...

Pode ser! Porque não?;)

Crystalzinho disse...

Noivo, obrigada pela visitinha.
Bjs