domingo, 17 de dezembro de 2006

De que Valem a Experiência e o Conhecimento da Velhice?

Estava a pensar em algum tema para escrever mas a falta de tempo não ajudava
Verdadeiramente, o tempo é o bem que mais desperdiçamos, sem que o possamos, alguma vez, recuperar.
Esta reflexão levou-me a pensar na velhice e num texto que li, há algum tempo, e adorei.
Partilho-o convosco e espero que também seja do vosso agrado.



«Envelheço aprendendo sempre» - Sólon, na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia dizê-lo também na minha; mas é bem triste o conhecimento que, desde há vinte anos, a experiência me fez adquirir: a ignorância ainda é preferível.
A adversidade é, sem dúvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas lições e muitas vezes o proveito que delas se tira não vale o preço que custaram. Aliás, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido. A juventude é o tempo próprio para se aprender a sabedoria; a velhice é o tempo próprio para a praticar.
A experiência instrui sempre, confesso, mas não é útil senão durante o espaço de tempo que temos à nossa frente. É no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que tão tarde e tão dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paixões alheias de que ele é o fruto?
Não aprendi a conhecer os homens senão para melhor sentir a desgraça em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas, não me permitiu evitar nenhuma delas. Porque não permaneci nesse estado de confiança, insensata mas ditosa que durante tantos anos fez de mim a presa e o joguete dos meus ruidosos amigos, sem que tivesse a mínima suspeita de todas as tramas em que estava envolvido?
Troçavam de mim e eu era vítima deles, é verdade, mas acreditava que me amavam, e o meu coração deliciava-se com a amizade que eles me tinham inspirado e pensava que sentiam por mim uma amizade igual. Essas doces ilusões estão destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão me revelaram, ao fazer-me sentir a minha infelicidade, permitiu-me ver que não havia remédio e que não me restava senão resignar-me. Por isso, para mim, na minha situação actual, todas as experiências da minha idade não têm utilidade presente nem proveito futuro.
Ao nascermos, iniciamos uma luta que só termina com a morte. De que serve aprender a conduzir melhor o seu carro quando se está no fim da estrada?
Então, já não resta senão pensar em como sair dele. O estudo de um velho, se é que ainda tem algo a estudar, consiste unicamente em aprender a morrer, e é precisamente o que menos se faz na minha idade, em que se pensa em tudo menos nisso. Os velhos estão mais agarrados à vida do que as crianças e saem dela com mais má vontade do que os jovens. É que, como todos os seus trabalhos se destinaram a essa mesma vida, ao chegarem ao fim, vêem que os seus esforços foram inúteis. Todos os seus cuidados, todos os seus bens, todos os frutos das suas laboriosas vigílias, tudo abandonam quando partem. Em vida, não pensaram em adquirir algo que pudessem levar consigo quando morressem.
Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

4 comentários:

voyeur disse...

A juventude é um bem precioso, infelizmente desperdiçado nas pessoas jovens...

Algum ancião o disse. E com razão.

Forte abraço. :-)

ci disse...

Referindo algumas citações: "O homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos"(John Barrymore), e "os velhos acreditam em tudo; os adultos suspeitam de tudo; os jovens sabem tudo"e por fim "a tragédia da velhice não está em se ser velho, mas sim em se ter sido jovem"(Oscar Wilde).

Na verdade os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem e a velhice acaba por ser sinónimo de experiência e conhecimento...

Beijinhos da ci

Rafeiro Perfumado disse...

O envelhecimento não tem de ser uma coisa má. O destino que damos ao tempo que nos é concedido é que define o género de pessoa que somos, é que nos vai permitir dizer, lá no fundo, se valeu a pena viver esta aventura.

Eu disse...

porque Eu tenho (quase velha)uma dívida de comentar, como Eu assumido, para com a menina
aqui fica uma prenda repetida porque as pessoas não se repetem e a imaginação não é muita